sábado, julho 07, 2012

Imigrante ilegal - à favor ou não?!



Hoje estava lendo um artigo da revista "TIME" - "Coming out illegal", uma admissão de mais de 11 milhões de imigrantes que vivem ilegalmente nos EUA.

Tocar no assunto em si já gera muita confusão, principalmete entre amigos próximos que citam minha "falta de coração" e "onde já se viu, afinal, você também já foi (e posso considerar 'sou') uma imigrante".

No artigo, o autor, que está ilegal no país há muitos e muitos anos, estudou aqui e hoje é um jornalista que escreve para o Washington Post. Ele deu várias explicações sobre o porque do status dele. Muitas delas a mesma balela dos muitos vivendo na mesma situação - eles não tem outra opção, e o objectivo é continuar a ter uma vida melhor e poder trabalhar, 'honestamente', sem ninguém encher o saco. "How dare you think I'm here for no good!"

O "Dream Act" que o Presidente Obama está tentando implementar, tem os seus positivos. Do mais, que crianças que foram trazidas ilegalmente pelos seus pais, possam tornar-se cidadãos americanos desde que estudem e cumpram com alguns outros requerimentos que eu não estou muito a par. Eu tenho muita simpatia por estas 'crianças', que muitas neste momento já são adolescentes ou até mesmo adultos, pois estão querendo fazer algo produtivo, mesmo diante da forma que os pais agiram, contra a lei.

Para outros imigrantes, eu já não tenho o mesmo sentimento. Pra mim é a mesma coisa daquele indivíduo que se sente no direito de cortar a fila do banco só porque ele acha que trabalhou mais do que eu durante o dia, ou porque ele acha a perna dói mais que a minha, ou sei lá... ele deve ter uma situação 'incontrolável'. O que dá a essa pessoa mais autonomia de ter um 'ok...vc pode ficar" do que os outros que tentam fazer tudo do jeito certo, e pelos meios legais?

Sejamos realistas, principalmente hoje em dia, os EUA não são a última bolacha do pacote. Por causa da recessão, a vida aqui pra muitos é deprimente, senão no mínimo intolerável. Tanto que não é de se espantar que o número de imigrantes voltando pra "casa" aumentou muito nos últimos anos. Mas ainda é um país que oferece grandes oportunidades de uma vida digna.

Agora, sim, eu tenho sim a minha história pra contar. Não é novidade que eu vim como au-pair, casei-me e estou aqui a mais de 8 anos. Minha idéia não era simplesmente vir passear e ficar (casando ou não), já que eu já havia morado no Canada e se agir contra a lei e estar fora do meu país fosse o meu intuito, eu já teria ficado por lá, que pelo o que me lembro, me agrada mais do que os EUA.

Sim, eu gostei da vida daqui. Sim, eu me apaixonei por um americano. Sim, eu resolvi ficar.

Ahhh...e sim, eu fiz tudo dentro da lei e não fiquei um dia sequer ilegal nesse país. E sei que há várias formas de continuar legal no país mesmo que não tivesse sido por casamento...tem os vistos de estudante, de trabalho, e por aí vai. A forma que recebi o meu green-card foi a mais fácil? Foi. Foi também consequência de um amor, e sim, foi a mais fácil. Se não...provavelmente  não estaría aqui hoje...e se estivesse, seria por meios legais, que eu sei que há varias formas (algumas delas nem são as mais corretas, como casamento por conveniência, mas ainda assim mostra que a a pessoa está realmente tentando ter um status 'legal'no país, e não simplesmente ficar porque...que se dane).Enfim, me tornei uma cidadã americana em 2009.

Aí entra na história o meu irmão mais novo. Tem 25 anos, casado, tem emprego, tem alguns bens mas não muito. Em 2008 quando meu pai, minha mãe e ele foram tirar o visto para virem me visitar (naquela época ele não era casado), meu pai e minha mãe conseguiram o visto e o do meu irmão foi negado. Fico triste só de pensar, até hoje. Meu irmão até tem uma vontade de morar aqui, mas é mais porque eu gostaria de ter família por perto do que a vontade dele mesmo. Mas nem o visto pra vir visitar ele consegue. Nem pra saber se ele gosta daqui ou não. Desde que me tornei cidadã, posso entrar com o pedido para ele ter um green card - já que pensei, "se eles não dão um visto de turista, então vou entrar com um processo com a imigração".

Sabe qual é a espera para um irmão/irmã conseguir um visto, que em consequência lhe dá o benefício de ter um green card? No mínimo 10 anos. E vai ter que ser assim...vamos ter tentar outro visto, e se negado, não tem outro jeito....temos que esperar os tals 10 anos. Não tem jeitinho.

Então, porque eu vou ficar com pena de quem está aqui ilegal? Por que eu vou ficar com dó do pessoal que está "furando a fila"? Qual é a situação deles que é extremamente tão mais importante do que a minha situação e da minha família? A imigração dá várias formar de uma pessoa tornar-se legal nesse país. Porque agir ilegalmente tem que ser o certo, e aceitável? Os EUA são um país bem generoso...se a situação é extramente difícil (como o pessoal lá na Africa, alguns países da Asia,  you name it) pode-se sempre pedir asilo aqui. Isso sim é o pessoal que 'precisa'.

Quero reforçar que não acho que a vida aqui nos EUA está uma maravilha. Com certeza não está...pra muita, senão a maioria dos cidadãos, está extremamente difícil. Entendo que muitos ilegais são trabalhadores e pessoas do bem, mas na mesma moeda, muitos não são... E tomam vantagem de tudo o que podem.

E que fique bem claro...legal ou ilegal, eu continuo tratando a todos com respeito, sempre. Minha opinião não muda em nada essa história. Não desprezo estas pessoas, apenas não concordo com suas atitudes. E ajudo como posso. Engraçado que a assistente do meu dentista é mexicana por nascimento, e tem o green card.  A mãe tem o green card há muitos anos, e o irmão mais novo que ela está aqui ilegal. Tudo o que eles precisavam era entrar com o processo de cidadania da mãe para ela ela desse entrada para o filho, mas me dissse que não tinham dinheiro pra pagar advogado. Eu disse que o processo era muito fácil e me disponibilizei a ajudá-los. Elas vieram em casa e preenchemos os formularios juntas, e pronto...está tudo correndo pra situação ser regularizada. No fim das contas, o menino nem precisava estar aqui ilegalmente.

Voltando ao artigo da revista, o autor parece ter ficado meio irritado que uma pessoa perguntou como ele conseguiu uma carteira de motorista. E a irritação foi pelo motivo pelo qual "ele precisava trabalhar. E viajar (apesar de não ser o mais importante, já que ele pode mostrar o passporte, de qquer país, desde que seja válido). Então, pra simplificar, ele quer dizer que o fim justifica os meios.


Também pareceu meio ofendido já que, mesmo ilegal, os EUA ainda pedem que impostos sejam pagos. Quer dizer que não basta apenas não estar com a situação regulamentada, pedir pra pagar impostos - como todo mundo - é uma incoveniência total!.

E eu tenho que, não somente aceitar isso, mas também defender essa idéia de que imigrantes ilegais tem que ser aceitos, não importa os meios, porque no fim do dia, um dia, eu também não era cidadã?

Não...há leis. E eu bem que queria que as coisas fossem mais simples,  e que o processo fosse mais rápido e que todo mundo conseguisse o visto sem tanta burocracia, mas infelizmente, não é assim que as coisas funcionam. No meio tempo, pra mim parece que nada justifica uma pessoa tentar 'cortar a fila' só porque ela se acha no direito. Ela pode até tentar. E ter sucesso. Mas se for pega no flagra, vai ficar ofendida? Come on...

12 comentários:

flavholman disse...

Ai, ai Cyn, eu tenho uma outra opiniao sobre esse negocio.

Nao, nunca na minha vida fiquei nem um dia ilegal em qq pais que tivesse morado, mas tenho uma super amiga minha que veio pra ca ilegalmente e pagava impostos como todos nos "legais", tbem trabalhava feito uma condenada e fazia bem para a sociedade.
Sobre os "dreamers" do Dream Act (eu sei que vc concordou com o Act), uma das estipulacoes sao que tenham participado do exercito, o que acho mais que justo jah que estavam arriscando a vida por esse pais aqui.

A maior populacao ilegal da Inglaterra eh de americanos, sabia disso? Dado pego na embaixada americana em Londres onde o Paul trabalhou.

Nao, nao concordo com a imigracao ilegal, especialmente pessoas que vem para cah e roubam, trazem drogas, etc, mas existem certos casos e certas pessoas que vem e dao um duro danado para terem uma vida legitima. Nao eh facil vir como estudante, com work permit nem nada disso, as regras sao bastante duras e vc sabe disso.

Bom, essa eh minha opiniao, espero que o jeito que escrevi nao tenha sido ofensivo nem nada.

bjs

Sonho Meu disse...

Eu pergunto quando um imigrante veio junto com os pais pros States com dois aninhos de idade,estudou aqui, fala ingles perfeito, nunca retornou ao seu pais natal apesar de falar o idioma, por que nao tem a sua situacao regularizada? Precisa pedir? Isso é direito do país oferecer automaticamente a cidadania pra essas pessoas. Afinal eles sao americanos sem documentos. Isso é uma vergonha ! Tem lido casos e casos desses nos jornais e sinceramente fico horrorizada com a situacao ! Acedito que em nenhum pais do mundo isso ocorreria. Nao esperem que a pessoa peça cidadania...ofereça a cidadania pra eles. Ora bolas
!

Cyn por ai... disse...

Oi Fla, de forma alguma me ofende. Todos temos opinioes e sao respeitadas. Entendo os motivos da sua amiga, e se ela ficar, e trabalhar e nao problemas, bom pra ela. Alias, de acordo com esse artigo, o rapaz informou a imigracao que ele nao eh documentado, perguntou o que ia acontecer, e a resposta foi que, por ele nao ter isso apreendido ou cometido nenhuma 'infracao' regular, simplesmente ele 'nao existe' pra eles. Agora, se alguma coisa acontecer de a pessoa ser pega nessa situacao, eu nao acho certo querer reclamar. Eh um risco que todos eles correm. Bjs,

Cyn por ai... disse...

Oi Elena,
Pois eh, precisa pedir, e essa eh a principal razao do Dream Act. A crianca soh considerada americana se nasce, o que muda o assunto pra outro muito importante assunto - os 'anchor babies', qdo maes gravidas atravessam a fronteira gravidas so pra ter os bebes aqui, assim eles sao automaticamente considerados americanos, o que ja eh outra historia. Esse negocio de cidadania eh complicado....deveria-se ter uma forma mais facil de fazer as coisas...

JR disse...

oi Cynthia! Sempre leio seu blog e nunca comentei.

Eu entrei nos EUA em 2005 legalmente, estudei ingles e resolvi ficar, fiquei sim ilegal durante 4 anos. Trabalhei de baba, housekeeper, nunca paguei imposto, porque nem sabia como, se tivese claro que pagaria.
Nao aguentei mais e voltei para o Brasil. É horrivel ficar ilegal, nao podia viajar, nao podia ir ao Brasil, nao podia procurar assistencia médica e ate nos ultimos dias quando fiquei em NY antes de voltar de vez nao podia ficar no hotel sem visto, ou sem ao menos ter passagem de volta. Foi ali que me deu o medo pela primeira vez. Nunca fui parada pela imigração e ainda eu morava em uma cidade aonde tinha muito Brasileiro. Eu so acho que o ruim era pra mim, ou para a pessoa que esta ilegal, para os outros isso nao interfere.

Agora moro na Alemanha, casada quase ganhando minha cidadania, aqui é muito mais fail e rapido. Estou muito mais feliz, sem precisar me esconder, sem medo, mas ainda com problemas da lingua, que é muito dificil nunca fui tratada mal por isso. Muito melhor essa vida do que a que tinha nos EUA. E da proxima vez que for ai posso entrar com meu passaporte alemao e nao preciso me esconder mais.
motivo que fiquei ilegal ai?? Eu gostava um pouco da vida, nao de ilegal claro, mas do estilo de viver que voce sabe bem. E no Brasil apesar da minha familia ter uma vida boa, eu nao tinha, foi so nos EUA que tinha um certa liberdade, economica, se é que me entende!!!

Cyn por ai... disse...

Oi JR,

Eu entendo totalmente o motivo pelo qual vc ficou. Aliás, este é um dos motivos que muitos ficam. A vida pode ser melhor, ou seja lá qual for o motivo. E a sua experiência explica exatamente as consequências dessa decisão...viver sempre com medo do que pode acontecer e as restrições que a vida dessa forma oferece. Que bom saber que vc entende que a vida assim era uma consequencia de uma escolha, e vc sabia o que podia acontecer.

Eu não concordo com as pessoas que ficam ilegais e se acham no direito de estar nessa situação. Que acham que devem ter tudo dado na mão, e que tem os mesmos direitos das pessoas que fizeram tudo do jeito certo, do jeito longo, difícil, árduo. É isso que não concordo.

Obviamente vc não é uma dessas pessoas.

Estou muito feliz que as coisas estao dando certo pra vc na Alemanha, e que vc possa viver uma vida que lhe traz felicidade, e não medo. Muito melhor né? E não deixe de voltar aqui pra visitar :)

Bjs,

Isabella disse...

Concordo em genero, numero e grau e toda vez que digo isso sou quase que apedrejada! Eu sempre tento lembrar as pessoas que o meu ponto de vista eh contra a situacao e o nome ja diz, o imigrante eh "ilegal", ou seja, age contra a lei. O meu ponto de vista nao eh contra a pessoa. Tenho conhecidos aqui que sao ilegais e os adoro, sao pessoas bacanas, mas o que eles estao fazendo nao eh correto. E eh tudo so um ponto de vista!

Nani disse...

awwww, escrevi um comentario enorme mas acho que nao foi :(

Unknown disse...

Olá Cynthia,

Gostaria de entrar em contato sobre uma pesquisa acadêmica. Agradeço o seu retorno.

Carolina Tavares

carolinascultoritavaresdasilva@gmail.com

William disse...

Pois é Cyn, quem sabe um dia eu consigo ir ai te visitar, e quem sabe até morar ai! sei que vai demorar, mas uma jora vai! abraço
]

Shirley Sanches Alves disse...

Olá Cyn,

Vivo me esbarrando em vc pelos blogs da vida...rs.
Quase fui au pair na mesma época que vc, mas conheci quem é hoje o meu marido e deixei a ideia adormecida.
Tudo o que é ilegal é um pouco complicado, mas cada caso é um caso e o ruim de tudo é não ter sossego em viver em um lugar que escolhemos, não é mesmo?
Bacana saber que vc tb se casou com um americano (tenho uma amiga da mesma época que aconteceu a mesma coisa...rs)!
No próximo ano estarei fazendo a minha primeira viagem depois de casar e ter a minha pequena Manuella. Vai ser difícil ficar longe destes dois que são a minha alegria, mas sonho adormecido é complicado,não?!
Se quiser me visitar: www.newcastlepramim.blogspot.com.br

Bjkas

Gisley Scott disse...

Cyn,

Quanto as crianças envolvidas, eu concordo que elas tem que receber a cidadania, pois não agiram por si mesmas, apenas seguiram o percurso dos pais, mas tirando esse caso, eu não concordo quando as pessoas não fazem as coisas dentro da lei e ainda querem ter razão.Isso não me entra.

Eu e muitas outras meninas que fizeram a coisa do jeito certo sabe da burocracia,sabe dos dias de choro e da eterna espera, mas o fazemos primeiro por respeito ao país, ao povo e pq queremos dormir de consciência limpa.

Não falo aqui dos ilegais que estão querendo legalizar a sua situação e resolver o problema[pq sei de gente boa que ainda não teve condições de resolver isso, fala inglês e não tem paz em viver assim],mas falo daqueles que são ilegais, se acham,não querem aprender inglês e querem viver um Brasil dentro dos EUA.Isso aí eu não concordo.

Eu tive uma experiência terrível em Orlando quando fui a um restaurante brasileiro estilo self-service.Fui com meu esposo e o garçom falava inglês todo emburrado, como se estivesse super ofendido.Mas morar aqui ele gosta não é mesmo?

Ah não aguento.
Bjs